Questionamentos envolvendo Toffoli, suspeitas relacionadas a Moraes e o confronto com André Mendonça arrastaram PF, PGR e AGU para uma crise que agora depende do plenário do Supremo
O que começou como uma investigação sobre um suposto esquema bilionário de fraudes no Banco Master transformou-se em uma das mais delicadas crises internas do Supremo Tribunal Federal (STF). Em poucos meses, o caso passou a envolver ministros da Corte, familiares de autoridades, contratos milionários, relatórios da Polícia Federal e uma sequência de decisões conflitantes.
No centro da tensão estão Dias Toffoli, que deixou a relatoria após sofrer forte pressão; André Mendonça, que assumiu o inquérito; e Alexandre de Moraes, citado em documentos da PF sobre supostos vínculos com o banqueiro Daniel Vorcaro.
A escalada atingiu também o procurador-geral da República, Paulo Gonet; o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues; a Advocacia-Geral da União e o presidente do Supremo, Edson Fachin, que precisou intervir para tentar conter o confronto.
O caso chega ao Supremo e pressiona Toffoli
A crise começou a ganhar forma em dezembro de 2025, quando Dias Toffoli determinou que a investigação envolvendo Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, passasse a tramitar no STF.
A defesa do banqueiro argumentou que um deputado federal, detentor de foro privilegiado, havia sido citado no processo. Com isso, as medidas relacionadas à investigação deixaram a Justiça Federal em Brasília e passaram a ser analisadas pelo Supremo, sob sigilo.
A atuação de Toffoli começou a ser questionada após a revelação de que ele havia viajado, em novembro de 2025, em um jatinho particular no qual também estava Luiz Antonio Bull, advogado de um dos diretores do banco. A viagem ocorreu quatro dias antes de o ministro levar o caso ao STF.
O desgaste aumentou com a divulgação de negócios envolvendo parentes de Toffoli e pessoas próximas a Vorcaro. Segundo informações publicadas pela imprensa, um cunhado do banqueiro teria comprado a participação de familiares do ministro em um resort no Paraná.
Um relatório da Polícia Federal também teria identificado menções a Toffoli no celular de Vorcaro, incluindo mensagens sobre um possível encontro. O gabinete do ministro negou qualquer relação pessoal ou financeira com o banqueiro e classificou as interpretações como “ilações”.
Apesar de receber apoio público dos demais ministros do STF, Toffoli deixou a relatoria. André Mendonça foi escolhido por sorteio para assumir o caso.
Contratos levam investigação ao entorno de Moraes
A mudança de relator abriu uma nova etapa da crise. Vieram à tona contratos entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.
Um dos acordos, conforme publicado por O Globo, previa pagamentos de R$ 3,6 milhões por mês. Outros contratos também teriam sido firmados com o escritório, que possui entre seus sócios dois filhos e uma cunhada do ministro.
O ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski também apareceu entre os profissionais contratados pelo banco. O acordo com o escritório de sua família teria vigorado entre o início de 2023 e agosto de 2025. Lewandowski declarou que se desligou do contrato quando assumiu o Ministério da Justiça.
A existência desses contratos não comprova, isoladamente, qualquer irregularidade. O caso ganhou maior gravidade, porém, quando documentos da Polícia Federal passaram a indicar uma possível participação direta de Moraes nas negociações envolvendo o escritório de sua esposa.
Relatório da PF aponta supostos vínculos entre Moraes e Vorcaro
Documentos divulgados em setembro indicariam que Alexandre de Moraes teria participado das negociações entre Daniel Vorcaro e o escritório de Viviane Barci. O ministro teria, inclusive, sugerido alterações em um contrato estimado em aproximadamente R$ 131 milhões.
As mensagens apreendidas no celular do banqueiro também apontariam uma conversa entre os dois dias antes da primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025. Segundo o relatório, o banqueiro teria demonstrado preocupação com uma possível operação da Polícia Federal e perguntado se deveria deixar o Brasil.
O documento cita ainda a suposta emissão de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil em nome dos filhos de Moraes e Viviane Barci, além de negociações envolvendo cotas de um jatinho e de um helicóptero como forma de pagamento ao escritório.
Alexandre de Moraes nega irregularidades. O escritório de sua esposa afirma que os contratos respeitaram a legislação e as normas aplicáveis à advocacia.
As informações foram encaminhadas por André Mendonça ao plenário do Supremo e à Procuradoria-Geral da República, que deveria avaliar a possibilidade de abertura de uma investigação contra Moraes.
PGR questiona relatório e Moraes reage
O procurador-geral Paulo Gonet pediu a anulação do relatório. Para a PGR, Mendonça não teria competência para determinar diretamente uma investigação da Polícia Federal durante a fase pré-processual. Diante de suspeitas envolvendo outro ministro, a questão deveria ter sido submetida previamente ao plenário.
Pouco depois, Moraes encaminhou ao presidente do STF um pedido de investigação contra Mendonça no âmbito do inquérito das fake news.
Moraes alegou haver indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Segundo ele, Mendonça teria direcionado investigações por motivações pessoais e políticas, inclusive nos casos do Banco Master e das fraudes no INSS.
O episódio transformou uma divergência processual em um confronto aberto entre integrantes do Supremo.
Disputa alcança o comando da Polícia Federal
A tensão aumentou quando Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada.
O ministro afirmou que vinha sendo monitorado pela inteligência da PF de maneira ilícita. Relatórios encaminhados a Moraes apontariam uma suposta articulação entre Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias, favorecida pela origem religiosa evangélica de ambos.
Mendonça classificou a interpretação como “surreal” e “abjeta” e questionou a validade dos documentos. Também determinou a abertura de apurações para esclarecer como os relatórios foram produzidos.
A decisão provocou reação dentro da PF. Onze diretores colocaram seus cargos à disposição em solidariedade a Andrei Rodrigues. A Advocacia-Geral da União também recorreu, argumentando que a nomeação e a exoneração do diretor-geral da corporação são atribuições do presidente da República.
No dia seguinte, Flávio Dino suspendeu a decisão de Mendonça e determinou a reintegração dos dirigentes. Para Dino, Mendonça não poderia decidir sozinho sobre um afastamento relacionado a um conflito no qual seria parte interessada.
Fachin assume o controle da crise
Diante da sucessão de decisões conflitantes, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a condução institucional do caso. Ele suspendeu os efeitos das decisões de Mendonça e Dino e retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news.
Fachin também convocou o plenário para analisar a validade do relatório da Polícia Federal que aponta os supostos vínculos entre Moraes e Vorcaro.
Antes de avaliar o conteúdo das suspeitas, os ministros terão de decidir se André Mendonça tinha competência para determinar a produção do documento. Caso o relatório seja considerado inválido, poderá perder força como fundamento para a abertura de uma investigação. Se for validado, o Supremo enfrentará uma situação inédita e de enorme repercussão: decidir se existem elementos para investigar formalmente um de seus próprios integrantes.
Uma crise que ultrapassou o Banco Master
O caso deixou de ser apenas uma investigação financeira. Hoje, também coloca em discussão os limites das decisões individuais de ministros, a atuação da inteligência policial e os procedimentos para investigar integrantes do próprio Supremo.
As acusações divulgadas até agora não representam condenação. Moraes, Toffoli e os escritórios citados negam irregularidades, enquanto a validade de parte dos documentos ainda depende de uma decisão colegiada.
O próximo movimento do plenário será decisivo. Mais do que definir o destino de um relatório, o STF precisará demonstrar se consegue investigar suspeitas envolvendo seus próprios membros sem aprofundar a crise de confiança entre as instituições da República.


