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Silvia Albuquerque: a mulher de fé que transformou dor em acolhimento e luta em dignidade

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Silvia Albuquerque: a mulher de fé que transformou dor em acolhimento e luta em dignidade

Primeira yalorixá a receber medalha de honra na Assembleia Legislativa, liderança negra e religiosa é reconhecida por uma trajetória marcada por espiritualidade, ação social e combate ao preconceito.

A homenagem concedida à Ìyalorixá Silvia D’Oxum, por iniciativa da deputada Carminha Paiva, carrega um significado que ultrapassa o ato formal da entrega de uma honraria. Trata-se do reconhecimento público a uma mulher negra, de origem humilde, líder religiosa de matriz africana, que transformou a própria caminhada em instrumento de acolhimento, resistência e serviço ao próximo.

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Silvia Ribeiro de Albuquerque, natural de Laranjeiras, em Sergipe, construiu sua história longe dos privilégios. Sem grandes recursos financeiros, aprendeu desde cedo que a força de uma causa não está apenas no dinheiro disponível, mas na capacidade de mobilizar pessoas, abrir portas, unir vontades e fazer do cuidado uma missão coletiva. É exatamente essa marca que fez de sua trajetória uma referência social, cultural e espiritual no estado.

Fundadora e líder religiosa do Ilê Axé Yáaparálomim Abassá Maria da Paz, casa de culto fundada em setembro de 1999, Silvia soma mais de 25 anos de atuação religiosa e comunitária. Sua presença no território vai além da condução espiritual: envolve escuta, orientação, apoio, promoção da dignidade humana e defesa de uma cultura historicamente alvo de preconceito.

Em um país onde as religiões de matriz africana ainda enfrentam intolerância, ataques e interpretações distorcidas por parte de quem desconhece sua história e sua profundidade, a homenagem a Silvia D’Oxum também funciona como resposta institucional ao racismo religioso. Sua vida mostra, na prática, que a fé de matriz africana é lugar de cura, proteção, ancestralidade, solidariedade e compromisso com quem mais precisa.

A atuação social de Silvia impressiona. À frente da Associação Revida – Renascer para a Vida, ela ajudou a capacitar mais de 2.800 mulheres por meio de cursos profissionalizantes, em parcerias com instituições como SENAC, Prefeitura Municipal e Instituto Federal de Sergipe, por meio do Projeto Mulheres Mil. Também esteve ligada ao atendimento de mais de 200 crianças e adolescentes com ações sociais.

Esses números revelam uma liderança que não se limita ao discurso. Silvia D’Oxum organizou redes, aproximou parceiros, buscou oportunidades e ofereceu caminhos concretos para mulheres que muitas vezes encontraram, na qualificação profissional, uma chance de independência, autoestima e reconstrução de suas vidas.

No campo cultural, sua contribuição também é expressiva. Silvia é fundadora do Afoxé de Odé, apontado em seu currículo como um dos maiores cortejos afro-culturais de Sergipe e o único afoxé do estado reconhecido pela Federação Nacional dos Afoxés. Além disso, idealizou o cortejo em homenagem a Iemanjá após a Lavagem das Escadarias, fortalecendo manifestações culturais e religiosas de grande relevância no município.

Sua passagem pela gestão pública reforça a dimensão política — no sentido mais nobre da palavra — de sua trajetória. Entre 2021 e 2024, Silvia atuou como Coordenadora de Promoção da Igualdade Racial no município de Nossa Senhora do Socorro, sendo a primeira mulher afro-religiosa a ocupar o cargo. Nessa função, desenvolveu ações voltadas às comunidades tradicionais e à valorização da igualdade racial.

A medalha entregue na Assembleia Legislativa, portanto, não homenageia apenas uma liderança religiosa. Reconhece uma mulher que fez da fé uma ponte para a cidadania; da espiritualidade, uma forma de acolhimento; e da própria história, um exemplo de superação para tantas outras pessoas invisibilizadas.

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Silvia D’Oxum representa a prova viva de que a religiosidade de matriz africana, tantas vezes atacada por ignorância e preconceito, tem no centro de sua prática valores profundamente humanos: cuidar, proteger, orientar, alimentar esperanças e levantar quem foi deixado para trás.

Ao receber a honraria, Silvia Albuquerque leva consigo a força de sua ancestralidade, a dignidade de sua comunidade e a voz de muitas mulheres negras, pobres, religiosas e líderes populares que seguem fazendo o bem, muitas vezes sem holofotes, mas com uma grandeza que nenhuma intolerância consegue apagar.

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A homenagem da deputada Carminha Paiva, nesse contexto, ganha peso simbólico: é o reconhecimento de uma trajetória que une fé, cultura, serviço público e justiça social. Mais do que uma medalha no peito, Silvia D’Oxum carrega uma história que honra Sergipe, fortalece a luta contra o racismo religioso e reafirma que liderança verdadeira é aquela que transforma vidas.

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