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“Gararu foi a Brasília, mas quem voltou foi o mau cheiro político”

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“Gararu foi a Brasília, mas quem voltou foi o mau cheiro político”

Entre vídeos de elevador, risadas constrangedoras e silêncio sobre resultados, comitiva expõe a distância entre a farra da política e a realidade dura do município

A Marcha dos Prefeitos, em Brasília, nasceu para ser uma vitrine do municipalismo brasileiro. Em tese, é o momento em que gestores deixam seus municípios para cobrar recursos, discutir pacto federativo, destravar convênios, pressionar ministérios e voltar para casa com alguma resposta concreta para a população. Em 2026, o evento aconteceu entre os dias 18 e 21 de maio, reunindo milhares de gestores municipais e tendo como pauta oficial temas como financiamento das prefeituras, royalties do petróleo, execução do PAC e propostas com impacto bilionário nos cofres locais.

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Mas, como quase tudo na política brasileira, entre a teoria e a prática existe um corredor comprido. E, no caso de Gararu, esse corredor parece ter passado por um elevador.

A comitiva ligada à prefeita Zete de Janjão, do PSD, virou assunto nas redes depois de vídeos em tom de brincadeira durante a passagem por Brasília. O episódio mais comentado foi o já famoso “pum no elevador”, tratado como piada por uns, constrangimento por outros e sintoma político por quem ainda acredita que dinheiro público exige compostura mínima. O caso foi registrado por portal local, que questionou quem pagou a conta, quantas pessoas viajaram, quem recebeu diária, qual agenda oficial foi cumprida e o que Gararu trouxe efetivamente de Brasília.

 

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A piada, por si só, poderia morrer no grupo de WhatsApp. Todo mundo tem direito ao ridículo eventual. O problema é quando o ridículo viaja de avião, dorme em hotel, recebe diária e volta sem prestação de contas clara.

Gararu não é uma cidade que se possa dar ao luxo de transformar representação institucional em excursão recreativa. É um município pequeno, de gente trabalhadora, onde cada consulta que demora, cada estrada ruim, cada sala de aula precária, cada falta d’água e cada serviço público mal entregue pesa diretamente na vida de quem não tem alternativa. Para essa população, Brasília não deveria ser cenário de resenha. Deveria ser balcão de cobrança.

O contraste é cruel. Enquanto a Marcha discutia a situação fiscal dos municípios e a pressão sobre os cofres públicos, noticiários nacionais e regionais destacavam o outro lado do evento: festas de luxo, restaurantes lotados, movimentação noturna intensa e relatos envolvendo prostituição de alto padrão no Distrito Federal. Uma reportagem do Campo Maior em Foco, reproduzindo apuração sobre os bastidores da Marcha, descreveu a noite brasiliense como um circuito paralelo de ostentação após o expediente oficial.

É importante separar as coisas: não há, até aqui, prova pública de que a comitiva de Gararu tenha participado desses episódios nacionais envolvendo festas, prostituição ou orgias. Mas a política também é feita de símbolos. E quando uma comitiva municipal aparece em Brasília viralizando por molecagem, num ambiente já contaminado por notícias de farra e excesso, o dano à imagem é inevitável.

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A gestão pode até dizer que foi à Marcha para buscar recursos. Pode alegar que a presença de secretários, vereadores, assessores e aliados tinha finalidade técnica. Pode sustentar que tudo foi regular. Ótimo. Então basta fazer o que a boa administração pública exige: publicar a conta.

Quem viajou?
Quem autorizou?
Quem recebeu diária?
Quanto foi gasto com passagem, hospedagem, alimentação e inscrição?
Qual foi a agenda oficial de cada integrante?
Quais ministérios foram visitados?
Quais convênios foram destravados?
Que recursos foram garantidos?
Que resultado concreto chegou ou chegará para Gararu?

Essa é a diferença entre viagem institucional e passeio com crachá. A primeira deixa ata, agenda, ofício, protocolo, reunião, cobrança e resultado. A segunda deixa vídeo, gargalhada, perfume caro no corredor do hotel e silêncio administrativo.

A prefeita Zete de Janjão, reeleita em 2024 em Gararu pelo PSD, tem responsabilidade redobrada. Reeleição não é cheque em branco; é contrato renovado com cobrança maior. A própria candidatura dela aparece registrada com vice do PP, dentro da coligação “Para Gararu Continuar Avançando no Caminho do Bem”. O nome da coligação, aliás, agora soa como ironia pronta: avançar é bom, mas seria melhor saber para onde — e com dinheiro de quem.

A política brasileira já naturalizou muita coisa. Naturalizou comitiva inchada. Naturalizou diária como complemento salarial. Naturalizou vereador em evento técnico sem entregar relatório. Naturalizou assessor em Brasília sem agenda pública. Naturalizou o “foi tudo legal” como resposta suficiente. Não é.

Legalidade é o piso. Moralidade, eficiência e transparência também são princípios da administração pública. E, numa cidade pequena, onde todo mundo sabe quem viajou, quem apareceu no vídeo e quem voltou contando vantagem, a falta de explicação pesa mais que qualquer barulho de elevador.

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O episódio de Gararu tem graça, sim. Mas é uma graça amarga. Porque enquanto a internet ri do “pum”, o cidadão continua sentindo outro cheiro: o da falta de prioridade. O cheiro da política que se diverte enquanto o povo espera. O cheiro da comitiva que aparece mais no vídeo do que no resultado. O cheiro da gestão que anuncia recurso, promete melhoria, posa para foto, mas demora a entregar saúde decente, escola funcionando, água regular e serviço público com dignidade.

No fim, a pergunta não é quem soltou o pum. Isso é detalhe de república estudantil.

A pergunta é quem pagou a viagem.
A pergunta é por que tanta gente foi.
A pergunta é o que Gararu ganhou.
A pergunta é por que a prestação de contas ainda não viralizou com a mesma velocidade da brincadeira.

Porque, para o povo, o problema nunca foi o mau cheiro do elevador. O problema é quando a administração inteira parece tratar o município como se ele pudesse continuar respirando isso calado.

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